sexta-feira, 10 de junho de 2016

As lutas em Teixeira de Freitas: breve relato histórico-cronológico e o embrião do PSOL

Teixeira de Freitas explodiu depois da inauguração da BR 101 no início dos anos 70. Antes, era apenas uma vila cercada pela Mata Atlântica com poucos habitantes e era apelidada de ‘Mandiocal’... porque imensas plantações de mandioca no seio da mata. De repente, no início dos anos 80 já contava com mais de 50 mil habitantes.

No 1º período centenas de serrarias devastadoras implantadas no distrito trataram de destruir, quase que totalmente, as matas do local e de toda a região do seu entorno.
As terras férteis e produtivas logo atraíram a atenção dos donos da indústria alcooleira que pleiteavam introduzir o plantio de cana na região em grande escala. Assim, um plantio experimental foi realizado.

No rastro do interesse econômico mais espúrio e de elementos para garantir suas práticas habituais, vieram também os pistoleiros. O distrito abrigou na época, segundo as constatações, 6 dos 10 pistoleiros mais perigosos de todo o nordeste do país.

E veio também, em nome do ‘estado protetor’ – para assombro e inquietação do povo trabalhador, entretanto – uma polícia violenta... um batalhão inteiro com centenas de homens a posto, a serviço notório dos interesses do mesmo poder econômico e de seus representantes.

E, finalmente, para completar a desgraça, a expansão da monocultura do eucalipto. Hoje uma realidade desastrosa para toda a região e para as populações, com o aniquilamento das terras promissoras, com o definhamento das comunidades rurais e frustração dos sonhos de um povo.

A comunidade teixeirense – início dos anos 80

A maioria das pessoas que chegavam para Teixeira de Freitas vieram em busca de oportunidade nos planos de trabalho e econômico. No início, e por muito tempo, foi uma sociedade dispersa, despretensiosa, no que tange às lutas sociais necessárias para definição de um ponto de organização popular.

Entretanto, alguns companheiros, uns daqui, uns dali, outros de acolá, foram chegando e foram se juntando com suas experiências e, através de muitas reuniões e ações preliminares, conseguiram compor um principio de organização popular para contrapor à brutalidade das forças reacionárias:
·         Na contraposição, com sucesso e vitória dos movimentos populares, à tentativa de implantação da monocultura da cana e criação de um polo industrial de álcool no distrito;

·         Na contraposição às atividades sinistras dos pistoleiros e da própria polícia militar que, além de outras ações nefastas, interferiram para tentar frustrar os 3 grandes acontecimentos que marcaram definitivamente a presença das lutas populares em Teixeira de Freitas, ainda, distrito de Alcobaça: ‘ O primeiro de Maio de 1982’, ‘A manifestação pela reforma Agrária em 1983’ e a ‘Manifestação pelas Diretas Já em 1984’;

·         Na contraposição do processo de desmatamento da Mata Atlântica em curso e à imposição da monocultura do eucalipto, denunciando o latifúndio explorador e defendendo os trabalhadores rurais através do Sindicato de Trabalhadores recém-criado. Nesse período surgiu o embrião de um grande movimento de debates sobre os malefícios da monocultura do eucalipto na região. Os companheiros Padre José e Zé da Baiana, entre outros/as do Extremo Sul, foram decisivos para a organização do movimento que culminou com a criação do ‘Fórum Socioambiental do Extremo Sul da Bahia’;

·         Na contraposição à exploração absurda da mão de obra dos trabalhadores – condicionados a um sistema de miséria – pelas empreiteiras do eucalipto. A luta resultou na criação, posteriormente, de um grande Sindicato dos Trabalhadores no Plantio e Tratamento da Madeira (Ozires, junto a outros/as trabalhadores/as valorosos/as, com o apoio, na organização, do Padre José e Zé da Baiana, entre outros companheiros) que, através do enfrentamento estratégico, com uma postura de lutas coerente, veio a conquistar melhores salários e melhores condições de trabalho para toda a categoria.

            Obs.: Em muitas dessas ações a arte engajada cumpria o seu papel essencial. Zé, Baiana, Orlando, Marlon, Amarildo... essa turma, ora com o teatro popular, ora com o teatro de bonecos, provocavam os/as trabalhadores/as que, entre riso e choro, eram tomados de muita reflexão – enquanto, por outro lado, faziam tremer os coronéis.

Era uma vez um partido, que se constituiu como a ‘esperança’ para a classe trabalhadora combativa, os estudantes e os intelectuais comprometidos com uma sociedade justa... que referendou essa esperança durante o tempo que fomentou o processo dos núcleos por categorias de trabalhadores, por movimentos sociais, por movimentos diversos, com proposição e respeito às decisões das bases que, se não se fortaleceu e prosperou a contento para mexer com as estruturas conservadoras do capital, mostrou possibilidades jamais pensadas numa sociedade como a nossa. Em meio a tantos e tão importantes intelectuais que ajudaram a construir o partido, acompanhamos a ascensão, como exemplos sublimes dessas possibilidades, de muitos/as operários/as, de uma mulher negra lavadora de roupas e de uma secretária de um longínquo Sindicato dos Trabalhadores Rurais que, independentemente do desfecho de suas histórias depois, foram amostras afirmativas das possibilidades num projeto de luta concreto.

Era uma vez os núcleos, a esperança, as possibilidades... depois de 5, 8, 16 deputados federais o partido elegeu 32. Então, numa inversão proposital e danosa de valores a cúpula do partido e os eleitos, com raras exceções, passaram – com seus objetivos pessoais – ao topo da ‘relevância’, um criminoso processo de verticalização, no âmbito da organização partidária e mataram os núcleos e, consequentemente, a importância do conjunto partidário enquanto sinônimo de ‘esperança’.

Surge o PSOL

A esperança não tem dono, não tem carimbo de dominó. O conjunto majoritário do partido – o mesmo que debateu e referendou a ‘esperança’ enquanto motivo fundamental um dia, mas que se tornou incompetente para pronunciá-la – veio mostrar-se, mais tarde, promíscuo e ultraconservador em todos os aspectos, política, social e culturalmente. O rompimento dos pensamentos mais coerentes, contra a inconsequência daquele partido, era necessário e natural. Daí surge o PSOL em 2005.

Nós – apoiadores iniciais da formação do PSOL em Teixeira de Freitas e outros companheiros que vieram depois – já éramos PSOL antes de sua existência, pois já contestávamos as incoerências e as inconsequências do outro partido, mesmo pertencendo, ainda, ao se quadro de filiados.
Quando as tensões internas motivaram a ruptura – especialmente pela imposição do nefasto projeto de reforma da previdência pela administração Lula – com as saídas de Heloísa Helena, Luciana Genro, Babá e Paulo Fontes, nós aqui já vivíamos muitas tensões internas:

1. Na denúncia e na demanda com os Diretório Municipal e Estadual para expulsar 2 membros do Diretório Municipal corrompidos na questão da municipalização da saúde;

2. Na defesa intransigente do meio ambiente, com João Luiz na gerência do IBAMA local, a contragosto de setores influentes do partido que defendiam e queriam proteger os usurpadores de madeira da Mata;

3. Nas denúncias contra as ações grileiras das empresas de celulose e eucalipto na região e, especialmente, contra o financiamento da ordem de 1 Bilhão de reais destinados à Veracel pelo BNDS – já no governo Lula em 2003;


4. Na defesa de muitas ações nos planos político, social, cultural e econômico que escaparam à percepção daquele partido e que, posteriormente, vieram a compor o programa do PSOL.


(Texto apresentado no 1º Encontro Municipal do PSOL - Partido Socialismo e Liberdade, em Teixeira de Freitas no dia 14 de Maio de 2016).

Ijail Francisco
Membro do Diretório Municipal do PSOL – Teixeira de Freitas
Membro do Coletivo de Coordenação do ECPaz

2 comentários:

  1. Excelentes texto, me fez pensar algumas coisas importantes sobre nossa região e sobre uma verdadeira prática política de resistência ao que está posto. Precisamos de uma experiência Socialista efetiva, consistente, no Brasil. Uma experiência Socialista com Liberdade.

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  2. Excelentes texto, me fez pensar algumas coisas importantes sobre nossa região e sobre uma verdadeira prática política de resistência ao que está posto. Precisamos de uma experiência Socialista efetiva, consistente, no Brasil. Uma experiência Socialista com Liberdade.

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