Teixeira
de Freitas explodiu depois da inauguração da BR 101
no início dos anos 70. Antes, era apenas uma vila cercada pela Mata Atlântica
com poucos habitantes e era apelidada de ‘Mandiocal’... porque imensas
plantações de mandioca no seio da mata. De repente, no início dos anos 80 já
contava com mais de 50 mil habitantes.
No
1º período centenas de serrarias devastadoras implantadas no distrito trataram
de destruir, quase que totalmente, as matas do local e de toda a região do seu
entorno.
As
terras férteis e produtivas logo atraíram a atenção dos donos da indústria
alcooleira que pleiteavam introduzir o plantio de cana na região em grande
escala. Assim, um plantio experimental foi realizado.
No
rastro do interesse econômico mais espúrio e de elementos para garantir suas
práticas habituais, vieram também os pistoleiros. O distrito abrigou na época,
segundo as constatações, 6 dos 10 pistoleiros mais perigosos de todo o nordeste
do país.
E
veio também, em nome do ‘estado protetor’ – para assombro e inquietação do povo
trabalhador, entretanto – uma polícia violenta... um batalhão inteiro com
centenas de homens a posto, a serviço notório dos interesses do mesmo poder econômico
e de seus representantes.
E,
finalmente, para completar a desgraça, a expansão da monocultura do eucalipto. Hoje
uma realidade desastrosa para toda a região e para as populações, com o
aniquilamento das terras promissoras, com o definhamento das comunidades rurais
e frustração dos sonhos de um povo.
A
comunidade teixeirense – início dos anos 80
A
maioria das pessoas que chegavam para Teixeira de Freitas vieram em busca de
oportunidade nos planos de trabalho e econômico. No início, e por muito tempo,
foi uma sociedade dispersa, despretensiosa, no que tange às lutas sociais
necessárias para definição de um ponto de organização popular.
Entretanto,
alguns companheiros, uns daqui, uns dali, outros de acolá, foram chegando e
foram se juntando com suas experiências e, através de muitas reuniões e ações
preliminares, conseguiram compor um principio de organização popular para
contrapor à brutalidade das forças reacionárias:
·
Na contraposição, com sucesso e vitória
dos movimentos populares, à tentativa de implantação da monocultura da cana e
criação de um polo industrial de álcool no distrito;
·
Na contraposição às atividades sinistras
dos pistoleiros e da própria polícia militar que, além de outras ações
nefastas, interferiram para tentar frustrar os 3 grandes acontecimentos que
marcaram definitivamente a presença das lutas populares em Teixeira de Freitas,
ainda, distrito de Alcobaça: ‘ O primeiro de Maio de 1982’, ‘A manifestação
pela reforma Agrária em 1983’ e a ‘Manifestação pelas Diretas Já em 1984’;
·
Na contraposição do processo de
desmatamento da Mata Atlântica em curso e à imposição da monocultura do
eucalipto, denunciando o latifúndio explorador e defendendo os trabalhadores
rurais através do Sindicato de Trabalhadores recém-criado. Nesse período surgiu
o embrião de um grande movimento de debates sobre os malefícios da monocultura
do eucalipto na região. Os companheiros Padre José e Zé da Baiana, entre
outros/as do Extremo Sul, foram decisivos para a organização do movimento que
culminou com a criação do ‘Fórum Socioambiental do Extremo Sul da Bahia’;
·
Na contraposição à exploração absurda da
mão de obra dos trabalhadores – condicionados a um sistema de miséria – pelas
empreiteiras do eucalipto. A luta resultou na criação, posteriormente, de um
grande Sindicato dos Trabalhadores no Plantio e Tratamento da Madeira (Ozires,
junto a outros/as trabalhadores/as valorosos/as, com o apoio, na organização,
do Padre José e Zé da Baiana, entre outros companheiros) que, através do
enfrentamento estratégico, com uma postura de lutas coerente, veio a conquistar
melhores salários e melhores condições de trabalho para toda a categoria.
Obs.: Em muitas dessas ações a arte
engajada cumpria o seu papel essencial. Zé, Baiana, Orlando, Marlon,
Amarildo... essa turma, ora com o teatro popular, ora com o teatro de bonecos,
provocavam os/as trabalhadores/as que, entre riso e choro, eram tomados de
muita reflexão – enquanto, por outro lado, faziam tremer os coronéis.
Era
uma vez um partido, que se constituiu como a ‘esperança’
para a classe trabalhadora combativa, os estudantes e os intelectuais
comprometidos com uma sociedade justa... que referendou essa esperança durante
o tempo que fomentou o processo dos núcleos por categorias de trabalhadores,
por movimentos sociais, por movimentos diversos, com proposição e respeito às
decisões das bases que, se não se fortaleceu e prosperou a contento para mexer
com as estruturas conservadoras do capital, mostrou possibilidades jamais
pensadas numa sociedade como a nossa. Em meio a tantos e tão importantes
intelectuais que ajudaram a construir o partido, acompanhamos a ascensão, como
exemplos sublimes dessas possibilidades, de muitos/as operários/as, de uma
mulher negra lavadora de roupas e de uma secretária de um longínquo Sindicato
dos Trabalhadores Rurais que, independentemente do desfecho de suas histórias
depois, foram amostras afirmativas das possibilidades num projeto de luta
concreto.
Era uma vez os núcleos, a esperança, as
possibilidades... depois de 5, 8, 16 deputados federais o partido elegeu 32.
Então, numa inversão proposital e danosa de valores a cúpula do partido e os
eleitos, com raras exceções, passaram – com seus objetivos pessoais – ao topo
da ‘relevância’, um criminoso processo de verticalização, no âmbito da
organização partidária e mataram os núcleos e, consequentemente, a importância
do conjunto partidário enquanto sinônimo de ‘esperança’.
Surge
o PSOL
A
esperança não tem dono, não tem carimbo de dominó. O conjunto majoritário do
partido – o mesmo que debateu e referendou a ‘esperança’ enquanto motivo
fundamental um dia, mas que se tornou incompetente para pronunciá-la – veio
mostrar-se, mais tarde, promíscuo e ultraconservador em todos os aspectos,
política, social e culturalmente. O rompimento dos pensamentos mais coerentes,
contra a inconsequência daquele partido, era necessário e natural. Daí surge o
PSOL em 2005.
Nós
– apoiadores iniciais da formação do PSOL em Teixeira de Freitas e outros
companheiros que vieram depois – já éramos PSOL antes de sua existência, pois
já contestávamos as incoerências e as inconsequências do outro partido, mesmo
pertencendo, ainda, ao se quadro de filiados.
Quando
as tensões internas motivaram a ruptura – especialmente pela imposição do
nefasto projeto de reforma da previdência pela administração Lula – com as
saídas de Heloísa Helena, Luciana Genro, Babá e Paulo Fontes, nós aqui já
vivíamos muitas tensões internas:
1.
Na denúncia e na demanda com os Diretório Municipal e Estadual para expulsar 2
membros do Diretório Municipal corrompidos na questão da municipalização da
saúde;
2.
Na defesa intransigente do meio ambiente, com João Luiz na gerência do IBAMA
local, a contragosto de setores influentes do partido que defendiam e queriam
proteger os usurpadores de madeira da Mata;
3.
Nas denúncias contra as ações grileiras das empresas de celulose e eucalipto na
região e, especialmente, contra o financiamento da ordem de 1 Bilhão de reais
destinados à Veracel pelo BNDS – já no governo Lula em 2003;
4.
Na defesa de muitas ações nos planos político, social, cultural e econômico que
escaparam à percepção daquele partido e que, posteriormente, vieram a compor o
programa do PSOL.
(Texto apresentado
no 1º Encontro Municipal do PSOL - Partido Socialismo e Liberdade, em Teixeira de Freitas no dia 14 de Maio de 2016).
Ijail
Francisco
Membro
do Diretório Municipal do PSOL – Teixeira de Freitas
Membro
do Coletivo de Coordenação do ECPaz
Excelentes texto, me fez pensar algumas coisas importantes sobre nossa região e sobre uma verdadeira prática política de resistência ao que está posto. Precisamos de uma experiência Socialista efetiva, consistente, no Brasil. Uma experiência Socialista com Liberdade.
ResponderExcluirExcelentes texto, me fez pensar algumas coisas importantes sobre nossa região e sobre uma verdadeira prática política de resistência ao que está posto. Precisamos de uma experiência Socialista efetiva, consistente, no Brasil. Uma experiência Socialista com Liberdade.
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